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QUESTÕES-CHAVE E RECOMENDAÇÕES PARA ENFRENTAR LACUNAS EM CUIDADOS DOMÉSTICOS E COMUNITÁRIOS

por Social Science in Humanitarian Action Plataform


disponível em

https://opendocs.ids.ac.uk/opendocs/bitstream/handle/20.500.12413/15373/SSHAP_COVID-19_Homecare_review_FINAL3.pdf?sequence=3&isAllowed=y


último acesso em 07/08/2020


Tradução por Fábio Galvão Brito


Revisão por Lara Santos Oliveira


Uma série de suposições são feitas na orientação de atendimento domiciliar. Embora muitas diretrizes para o atendimento domiciliar incluam advertências em relação ao fato de o paciente ter seu próprio quarto ou banheiro, ainda há atenção às realidades materiais e sócio-políticas de muitas pessoas, particularmente em LMICs e pessoas de baixa renda, mas também em países de alta renda. Tais lacunas na orientação podem minar a capacidade das pessoas de cuidar de seus entes queridos com segurança e eficácia para mitigar a disseminação do COVID-19 em suas casas, comunidades e além. Em cinco temas, esta seção descreve algumas dessas lacunas e questões a serem consideradas, e fornece recomendações para resolvê-los. Onde experiências específicas de surtos de doenças passadas e da atual pandemia de COVID-19 também são apresentados e da atual pandemia de COVID-19.

1 - ACESSIBILIDADE E COMUNICAÇÃO DE ORIENTAÇÃO PARA CUIDADOS DOMÉSTICOS

Existem várias lacunas e suposições nos modelos e abordagens atuais para comunicar orientações em torno de atendimento

domiciliar. Saber o que fazer é crucial para os cuidadores domésticos. Aconselhamentos e suportes devem estar disponíveis e acessíveis.


1.1 - Ter em conta as barreiras ao acesso à orientação e apoio

QUESTÕES A CONSIDERAR


Há uma escassez de materiais de comunicação pública acessíveis, focados em atendimento domiciliar, on-line e off-line. Em alguns países, orientações detalhadas para atendimento domiciliar só podem ser encontradas em protocolos de gerenciamento clínico ou outros documentos em sites do governo que não são necessariamente direcionados a uma audiência pública. Isso pressupõe que pessoas com provável COVID-19 entrem em contato com atores formais de resposta que possam fornecer as informações necessárias sobre cuidados em casa. De fato, algumas diretrizes do país, alinhadas às orientações da OMS, estipulam que as pessoas devem ser avaliadas como elegíveis (ou não) para atendimento domiciliar. A implicação é que, se o atendimento domiciliar for considerado adequado por um profissional de saúde, somente depois disso eles receberão orientações mais detalhadas e 'vinculadas' ao suporte contínuo em algumas situações. As pessoas que não puderem ou não desejam se comunicar com atores formais por várias razões não poderão acessar orientação e apoio.


Barreiras adicionais ao acesso existem para certos grupos de pessoas. O design de material de comunicação apropriado e acessível pode ser particularmente desafiador em contextos com altos níveis de analfabetismo e onde as populações são linguisticamente diversas. Grupos marginalizados como: mulheres, migrantes, minorias étnicas e pessoas com deficiência estão particularmente em risco de serem ignorados pelas mensagens.


EXPERIÊNCIA


As experiências da crise do Ebola na África Ocidental mostraram que os telefonemas das pessoas para as linhas diretas de resposta geralmente não eram respondidas ou tinham tempos de espera muito longos. Há evidências de Bangladesh e Nigéria de que as pessoas já estão lutando para passar pelas linhas diretas da COVID-19 ou não estão recebendo a ajuda que precisam quando são atendidas. Os esforços de organizações comunitárias como Muungano no Quênia estão ajudando a identificar pessoas vulneráveis e difíceis de alcançar em comunidades já marginalizadas, e usando esse mapeamento para direcionar mensagens e recursos. Esforços baseados na comunidade como esse também podem ajudar a fornecer informações e apoio aos cuidados domiciliares, além de identificar famílias onde os cuidados domiciliares não seriam possíveis. Pessoas vulneráveis podem incluir pacientes om outras condições de saúde que precisam ser tratadas.


Esforços para produzir e fornecer material e informações de comunicação sobre o COVID-19 que refletem a diversidade linguística foram feitos em alguns contextos. No Reino Unido e na Indonésia, por exemplo, isso inclui vídeos e orientações traduzidas com conselhos básicos de assistência domiciliar, enquanto na Tailândia, foi criada uma linha direta de informações COVID-19 para comunidades migrantes linguisticamente diversas. Os materiais em braile também foram produzidos por grupos comunitários no Malawi. Não está claro até que ponto o aconselhamento em atendimento domiciliar é oferecido neste material em braile ou por meio da linha direta, mas essas abordagens representam possíveis caminhos pelos quais esse aconselhamento pode chegar a grupos frequentemente excluídos nas mensagens. Maneiras criativas de comunicação com grupos difíceis de alcançar e desconectados durante emergências também foram realizadas no passado, com os participantes enfatizando o rádio, usando megafones e anúncios de alto-falante em espaços públicos, como mercados, bicicletas e veículos. Nos seus esforços de comunicação sobre o COVID-19 no Oriente Médio e Norte da África, o UNICEF adotou algumas dessas estratégias, bem como enfatizou materiais impressos distribuídos em farmácias e áreas de comércio e anexados à assistência humanitária.


RECOMENDAÇÕES:

Recomendação: Garanta que o aconselhamento e o apoio ao atendimento domiciliar sejam acessíveis em uma ampla variedade de formas e espaços, e não apenas disponibilizados às pessoas quando entrarem em contato com serviços formais de saúde.

Recomendação: Trabalhe com atores e organizações locais para realizar exercícios de mapeamento comunitário que possam fornecer uma visão geral das condições locais para antecipar necessidades e direcionar apoio as pessoas que podem ou não são incapazes de fazer contato com agências formais de resposta.

Recomendação: Desenvolver materiais de comunicação, impressos e digitais, focados no atendimento domiciliar, especialmente nos formatos: visual, pictórico, de áudio e vídeo, e disponibilizá-los em diferentes idiomas locais e indígenas, incluindo o idioma vernacularizado. Utilize cartazes, outdoors, murais, televisão e mídias sociais. Poste e transmita-os por meio de canais locais confiáveis e acessíveis, em colaboração com atores locais e redes comunitárias.

Recomendação: o rádio é um meio fundamental para alcançar pessoas onde o acesso a outros dispositivos é escasso, enquanto anúncios em alto-falante e megafone de igrejas, mesquitas ou pessoas em veículos, de bicicleta ou a pé também podem fornecer informações para pessoas com acesso limitado.


Recomendação: Produza material de comunicação em formatos acessíveis a pessoas com deficiência, incluindo vídeos com linguagem de sinais e materiais físicos em braile.


1.2 Considerar limitações na tecnologia de telefonia móvel e comunicação e exclusões de endereços.


QUESTÕES A CONSIDERAR


Outra barreira para as pessoas que acessam informações e suporte contínuo para atendimento domiciliar é o acesso limitado às tecnologias de comunicação. Isso persiste em muitas comunidades marginalizadas e pobres, mesmo dentro das famílias. As mulheres, com maior probabilidade de cuidarem de parentes e amigos doentes, têm ao mesmo tempo menos probabilidade de ter acesso à tecnologia de comunicação. Hoje, na Índia, apenas 33% das mulheres têm telefone celular, enquanto 67% dos homens (possuem). O acesso limitado se manifesta não apenas como falta de telefones, mas também como falta de crédito de rede, dados e acesso Wi-Fi. Menos da metade das famílias nos países da LMI tem conexões com a Internet e um gigabyte de dados custa 40% da renda mensal média na África Subsaariana. Devido a essas exclusões, muitos podem não ser capazes de fazer chamadas iniciais para serviços de saúde ou linhas diretas, acessar informações on-line sobre atendimento domiciliar e se comunicar continuamente com os profissionais de saúde para obter suporte. Embora as linhas diretas possam ser gratuitas e os aplicativos possam ser baixados gratuitamente, os provedores de serviços móveis ainda podem cobrar pelo uso de redes móveis e de banda larga. Embora os fornecedores em alguns contextos, como Índia e Nigéria, tenham dado aos clientes acesso gratuito a sites verificados com informações sobre o COVID-19, além de SMS e dados gratuitos, não está claro o quão difundido isso é.


EXPERIÊNCIA

Um estudo recente descobriu que as mulheres mais velhas nos campos de Rohingya, em Bangladesh, sem acesso a telefones ou rádios, sabiam muito menos sobre o COVID-19 do que seus colegas do sexo masculino. Disparidades de gênero semelhantes no acesso à informação em surtos de doenças foram documentadas, inclusive em surtos de Ebola e de HIV / AIDS. No entanto, as mulheres podem ser importantes fontes de informação uma para a outra. Durante a crise do Ebola na África Ocidental, as mulheres trocaram informações e aprenderam sobre cuidados em grupos de mulheres.

RECOMENDAÇÕES


Recomendação: Se a comunicação direta por telefone ou digital com uma família não for possível, pode ser necessário que profissionais de saúde, como ACS, visitem regularmente as casas onde os cuidados estão ocorrendo.


Recomendação: Esforços especiais precisam ser feitos para alcançar mulheres e outras pessoas que possam ser excluídas da comunicação com informações cruciais sobre o atendimento domiciliar. Lugares frequentados por mulheres, como mercados e pontos de coleta de água, poderiam direcionar com mensagens sobre atendimento domiciliar e linhas de ajuda para ligar. Grupos e redes de mulheres também podem ser bons pontos de entrada para a introdução de informações. Chefes de grupos de mulheres devem ser incluídos nas forças-tarefa de saúde locais, pois provavelmente têm um meio de se comunicar com elas em suas comunidades.


Recomendação: Expandir o material de comunicação pública em formatos visuais não digitais para abordar exclusões tecnológicas e de alfabetização.


1.3 Abordar a falta de materiais de comunicação disponíveis ao público sobre aspectos práticos do atendimento domiciliar


QUESTÕES A CONSIDERAR


O material de comunicação relacionado ao COVID-19 tende a enfatizar o IPC básico na comunidade e no lar para reduzir a propagação do vírus (como o uso de máscaras, cobrir o nariz e a boca ao tossir, manter distância física e lavar as mãos com frequência) e instrui as pessoas para que entrem em contato com as autoridades relevantes se desenvolverem sintomas. Embora as medidas básicas do IPC sejam aspectos importantes do atendimento domiciliar e, de fato, precisem ser amplamente divulgadas, a falha em comunicar outras informações úteis e mais detalhadas sobre como realizar o atendimento domiciliar (incluindo alívio dos sintomas e sinais de deterioração) corre o risco de deixar as pessoas sem ferramentas essenciais para confortar e cuidar dos entes queridos. A rápida compreensão científica do COVID-19 também apresenta um desafio para o envio de mensagens em termos de consistência.


EXPERIÊNCIA


Durante a crise do Ebola na África Ocidental, as comunidades da Libéria urbana ficaram frustradas com o excesso de mensagens sobre o que era o Ebola e como se espalhou, e estavam desesperadas por informações mais práticas e consistentes sobre como cuidar, isolar, transportar pessoas doentes, proteger a si mesmos e limpar suas casas com os materiais disponíveis. Muitos acharam as mensagens confusas sobre se devem ou não e como tocar as pessoas infectadas com o Ebola que estavam recebendo cuidados

RECOMENDAÇÕES


Recomendação: Preste atenção na produção de uma ampla gama de orientações para atendimento domiciliar, que incluem dimensões práticas de suporte, incluindo IPC, alívio de sintomas, sinais de deterioração e locais para procurar mais ajuda. Isso pode incluir, por exemplo, conselhos sobre como ajudar pessoas debilitadas a comer, se mover na cama e a usar o banheiro (por exemplo, fornecendo-lhes uma cadeira). As orientações também devem incluir a maneira que devem agir quando as pessoas não serão mais consideradas infecciosas com SAR-COV-2 e quaisquer estipulações nacionais sobre períodos de isolamento para pacientes, outros membros da família ou contatos.


Recomendação: Assegure-se de que as mensagens sobre atendimento domiciliar sejam precisas e consistentes na medida do possível em um cenário de conhecimento científico em rápida evolução em torno do COVID-19, e que as mudanças nos conselhos e suas razões sejam claramente comunicadas.


1.4 Facilitar o diálogo para fluxos dinâmicos de informação e adaptação adequada ao atendimento domiciliar


QUESTÕES A CONSIDERAR


Embora seja importante o material de comunicação pública em formato escrito, visual e em áudio, com orientação para atendimento domiciliar, esses mecanismos mais tradicionais de comunicação de conselhos ainda podem não refletir as realidades, circunstâncias, recursos e prioridades das pessoas. Os modos mais dinâmicos e menos descendentes de envolvimento da comunidade, que facilitam o fluxo de informações bidirecionais, foram reconhecidos como importantes para uma resposta bem-sucedida a surtos de doenças, inclusive para o COVID-19. Isso oferece oportunidades para as pessoas não apenas fazerem perguntas, mas também articularem suas próprias necessidades e prioridades e desafiarem os conselhos quando isso não for prático. Além disso, as pessoas locais podem ter experiências ou conselhos úteis para compartilhar com outras e podem coletivamente encontrar soluções, se houver uma plataforma para interagir. De fato, eles devem ser perguntados proativamente que tipos de soluções e estratégias já podem ter, bem como quais comunicações eles preferem (incluindo idioma), quais recursos eles têm à sua disposição e que apoio gostariam de receber. Dessa forma, as pessoas locais podem ajudar a moldar o conhecimento e a prática em relação ao atendimento domiciliar de maneiras mais realistas e apropriadas para eles no nível local, e ajudar os atores de resposta a adaptar mais mensagens, direcionar recursos e apoiar os esforços liderados pela comunidade com mais eficiência. Como os riscos de infecção associados ao COVID-19 dificultam as estratégias de engajamento pessoal, estratégias alternativas - antigas e novas - precisarão vir à tona.

EXPERIÊNCIA

A radiodifusão tem sido uma maneira importante não apenas de fornecer informações, mas também de se conectar com a população local, principalmente em áreas com menos acesso a outras formas de tecnologia de comunicação. Durante os surtos de Ebola, os programas de entrevistas no rádio, por exemplo, provaram ser uma fonte valiosa de informação e interação com a população local. O rádio também é importante no contexto do COVID-19. A associação de jornalistas em Burkina Faso está divulgando regularmente os aspectos do COVID-19 e convidando os ouvintes a telefonarem com suas próprias perguntas e perspectivas.


RECOMENDAÇÕES

Recomendação: envolva estações de rádio locais para sediar sessões de perguntas e respostas de chamadas sobre atendimento domiciliar entre e as pessoas locais, membros influentes da comunidade e atores de resposta em diferentes idiomas e vernáculos locais.


Recomendação: As mídias sociais podem ser um espaço onde também podem ser realizadas perguntas e respostas e discussões dinâmicas sobre atendimento domiciliar. Embora nem todos estejam conectados, aqueles que são ou podem ser influentes localmente. Os chatbots existentes tendem a fornecer informações unidirecionais. Considere plataformas mais dinâmicas no Whatsapp, Facebook ou outras mídias sociais para introduzir informações e discussões sobre atendimento domiciliar. Proativamente, envolva-se com informações inúteis que surgem nesses espaços, afins de evitar disseminá-las.


Recomendação: Dependendo das circunstâncias e do cenário, convide os ACSs e outros atores confiáveis localmente a fazer visitas seguras de porta em porta - permanecendo à distância fora de casa e protegidos com EPI adequado (incluindo alternativas seguras ao EPI médico) - para oferecer informações e, igualmente importante, dialogar sobre o COVID-19, inclusive sobre atendimento domiciliar. A comunicação bidirecional entre pessoas e ACS pode informar a resposta nacional e local sobre o conhecimento, preferências, necessidades e estratégias das pessoas locais, tanto quanto fornecer informações a elas.


Recomendação: envolva atores locais, incluindo pessoas com deficiência, para garantir que as mensagens ressoem com a realidade material e social das pessoas e use palavras e conceitos que eles entendam. Os sintomas ou a gravidade da doença, por exemplo, podem ser entendidos e descritos de maneira diferente pelas pessoas locais, e as mensagens devem ser adaptadas de acordo.

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